"Ouça o vento, ele canta,Ouça o silêncio, ele fala,Ouça o seu coração,ele sabe."
- João Paulo de Carvalho Maschio
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
Nos ensinamentos de Dom Juan Matus, especialmente nas obras de Carlos Castaneda, existe uma orientação central: seguir o caminho do coração.
Mas o que isso realmente significa?
Não se trata de romantizar escolhas ou “seguir emoções” de forma impulsiva. Para Dom Juan, o caminho do coração é aquele que, mesmo sendo desafiador, faz o corpo sentir-se mais vivo, mais inteiro, mais presente. É um critério profundamente experiencial não racional.
E é aqui que essa frase encontra um ponto de conexão muito potente com o trabalho clínico.
O corpo como bússola
“Ouça o vento… ouça o silêncio…”
Isso aponta para uma qualidade de escuta que vai além da mente analítica.
Na prática clínica, especialmente a partir da Teoria Polivagal, entendemos que essa escuta só é possível quando o sistema nervoso está em um estado de relativa segurança o estado vagal ventral. É nesse estado que conseguimos:
perceber nuances internas
sentir sem sermos tomados
acessar intuição com mais clareza
Quando estamos em defesa (ansiedade, urgência, colapso), essa escuta fica distorcida. O “coração” deixa de ser uma bússola confiável e passa a ser confundido com impulsos de sobrevivência.
Seguir o coração é um estado, não uma ideia
Dom Juan dizia que um caminho com coração é aquele que você pode percorrer sem se esgotar internamente mesmo quando ele exige esforço.
Traduzindo isso para a linguagem do sistema nervoso:
não é o caminho sem medo
é o caminho em que há mais vitalidade do que ameaça
mais sentido do que contração
mais presença do que desconexão
E isso só pode ser sentido no corpo.
O papel da terapia nesse processo
Muitas pessoas chegam à terapia justamente por terem perdido essa referência interna. Não sabem mais diferenciar:
intuição de ansiedade
vontade genuína de necessidade de aprovação
movimento de vida de reação automática
O trabalho terapêutico, então, não é dizer qual caminho seguir.
É restaurar a capacidade de escuta.
Porque, quando o sistema nervoso encontra mais regulação, algo muito simples e ao mesmo tempo profundo começa a acontecer:
o corpo volta a saber.
E talvez seja disso que a frase fala, no fim.
Não de buscar respostas fora,mas de criar condições internas para reconhecer
aquilo que, de algum modo, sempre esteve ali.



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