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ACES e a Teoria Polivagal: Uma Nova Perspectiva Terapêutica Transformadora

  • Foto do escritor: João Paulo de Carvalho Maschio
    João Paulo de Carvalho Maschio
  • 23 de abr.
  • 3 min de leitura

A compreensão dos impactos do trauma na saúde mental e física tem avançado muito nas últimas décadas. Entre os conceitos que mais têm influenciado a prática clínica está o ACES, sigla para Adverse Childhood Experiences (Experiências Adversas na Infância). Essas experiências moldam profundamente o desenvolvimento do indivíduo e sua resposta ao estresse. Quando associadas à Teoria Polivagal, desenvolvida pelo neurocientista Stephen Porges, elas oferecem uma visão inovadora sobre como o sistema nervoso regula as emoções e o comportamento, abrindo caminhos para abordagens terapêuticas mais eficazes.


Vista frontal de um cérebro humano com destaque nas conexões neurais
Ilustração do cérebro humano destacando conexões neurais relacionadas ao trauma

O que são ACES e como surgiram


ACES são eventos traumáticos ou estressantes vividos durante a infância, como abuso físico, emocional ou sexual, negligência, violência doméstica, ou a presença de familiares com problemas de saúde mental ou dependência química. O estudo pioneiro sobre ACES foi realizado pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e Kaiser Permanente na década de 1990, envolvendo mais de 17 mil adultos. Os resultados mostraram que quanto maior o número de ACES, maior o risco de doenças crônicas, problemas de saúde mental, comportamentos de risco e até mesmo menor expectativa de vida.


Essas experiências não são apenas memórias difíceis; elas alteram o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso, influenciando a forma como o indivíduo percebe o mundo e reage a situações de estresse. Por isso, entender ACES é fundamental para qualquer profissional que trabalhe com saúde mental, educação ou assistência social.


A Teoria Polivagal e sua relação com ACES


A Teoria Polivagal explica como o nervo vago, um dos principais nervos do sistema nervoso autônomo, regula as respostas fisiológicas ao estresse. Segundo Porges, o nervo vago possui duas vias principais: uma mais antiga, ligada à imobilização (congelamento), e outra mais recente, relacionada à socialização e à regulação emocional.


Quando uma pessoa vivencia ACES, seu sistema nervoso pode ficar preso em estados de alerta constante ou desligamento, dificultando a capacidade de se sentir segura e conectar-se com os outros. A Teoria Polivagal ajuda a entender esses estados como respostas adaptativas do corpo a ambientes perigosos, e não como falhas pessoais.


Como ACES e a Teoria Polivagal mudam a perspectiva terapêutica


Integrar o conhecimento sobre ACES com a Teoria Polivagal transforma a abordagem terapêutica tradicional. Em vez de focar apenas nos sintomas ou na narrativa verbal do trauma, o terapeuta passa a observar e trabalhar com as respostas corporais e o sistema nervoso do paciente.


Abordagem centrada no corpo


O corpo guarda memórias do trauma que muitas vezes não são acessíveis pela fala. Técnicas que envolvem a regulação do sistema nervoso, como exercícios de respiração, mindfulness e terapias somáticas, ajudam a restaurar a sensação de segurança e a capacidade de autorregulação.


Reconhecimento dos estados de defesa


Compreender os diferentes estados do sistema nervoso (luta, fuga, congelamento ou engajamento social) permite ao terapeuta identificar quando o paciente está em um desses modos e adaptar a intervenção para promover a transição para um estado de calma e conexão.


Construção de segurança


A segurança é a base para qualquer processo terapêutico eficaz. A Teoria Polivagal destaca a importância de criar um ambiente onde o paciente possa sentir-se seguro para explorar suas emoções e experiências, facilitando a cura.


Vista lateral de uma pessoa praticando técnicas de respiração em ambiente tranquilo
Pessoa em vista lateral praticando respiração profunda para regulação emocional

Exemplo prático de aplicação terapêutica


  • Terapias Somáticas: Utilizam o movimento e a consciência corporal para liberar tensões acumuladas pelo trauma. Por exemplo, um paciente que experimenta congelamento pode ser guiado a sentir e mover partes do corpo para retomar o controle.



Impactos positivos dessa integração na prática clínica


Profissionais que adotam essa visão relatam maior eficácia no tratamento de transtornos relacionados ao trauma, como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Pacientes frequentemente descrevem uma sensação maior de controle sobre suas emoções e corpos, além de melhorias nas relações interpessoais.


Considerações finais


ACES e a Teoria Polivagal oferecem uma lente poderosa para compreender o impacto do trauma e guiar intervenções terapêuticas mais humanas e eficazes. Ao reconhecer que as respostas do corpo são formas de adaptação, o terapeuta pode ajudar o paciente a construir segurança, autorregulação e conexão social. Essa abordagem amplia o campo da terapia, promovendo uma transformação profunda que vai além da fala e alcança o sistema nervoso.


Para quem atua na área da saúde mental, educadores ou cuidadores, entender essa relação é um passo essencial para oferecer suporte verdadeiro e duradouro. O próximo passo é buscar formação e práticas que integrem esses conhecimentos, colocando o corpo e a neurociência no centro do cuidado.



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